A deveras ignorada variação linguística

Português é a língua oficial e predominantemente falada pela população de Portugal e do Brasil. Além disso, é língua oficial e uma das línguas mais importantes, seja como língua materna ou como língua segunda, em Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, na Guiné-Bissau, no Timor-Leste e em Cabo Verde. Efetivamente, sendo uma língua presente no mundo todo, nos continentes europeu, americano, africano e asiático em menor medida, é uma língua com uma diversidade bastante grande em suas realizações. Contudo, esta variedade cultural e linguística tão rica por vezes é definida como nas seguintes frases: “o português europeu é o mais correto”, “o português brasileiro é errado”, e assim por diante. Estas frases são alguns dos muitos exemplos da imagem que seus falantes nativos têm da língua portuguesa. Estas e outras frases valorativas somente estigmatizam e trazem à tona o preconceito de algumas formas.

A língua portuguesa de fato “nasceu” em Portugal. Isto é, é uma língua românica originada no galego-português, falada no reino da Galícia e no norte de Portugal, que passou a ser a língua oficial do reino de Portugal, quando este foi fundado em 1139, expandindo-se pouco a pouco em direção ao sul da península Ibérica durante a reconquista. Com a expansão marítima, nos séculos XV a XVII, ela chegou aos continentes africano, americano e asiático, tendo um grande contato com as línguas e com as culturas já presentes nestes continentes. Desta forma, o português teve um grande contato com diversas línguas banto no continente africano, com línguas ameríndias, tais como as da família linguística tupi-guarani no continente americano, e com o tétum-praça (língua franca entre os diferentes povos do Timor-Leste) na Ásia. O contato com diferentes línguas e culturas influenciou o português em diversas áreas, como na fonética, morfossintaxe e no léxico. Isso lhe conferiu um estatuto de língua multifacetada. Isto é, uma língua cheia de diversidade em suas estratégias de expressão.

Desta forma, se enriqueceu e variou, por exemplo, o campo do léxico, como se pode notar na variação do léxico ÔNIBUS: autocarro em Portugal, ônibus no Brasil, machimbombo em Angola e Moçambique, toca-toca em Cabo Verde, otocarro na Guiné e em São Tomé e Príncipe e, finalmente, microlete em Timor-Leste. Esta mesma variação ocorre também em outros âmbitos. Por exemplo, na fonética, onde se registram diversas realizações de /s/ em coda silábica, entre elas me[s]mo (alveolar surda), me[ʃ]mo (palatal surda), me[z]mo (alveolar sonora) e me[ʒ]mo (palatal sonora). Também na morfossintaxe há exemplos de variação, como na expressão de progressão verbal: estou a escrever (verbo conjugado + a + infinitivo) vs. estou escrevendo (verbo conjugado + gerúndio) ou a preferência por certa colocação de pronomes clíticos, como em explica-me (ênclise) vs. me explica (próclise). Como último exemplo, vale citar a ortografia, que registra diferentes formas ortográficas para o mesmo léxico: factos vs. fatos, que tem sido tema para discussões acaloradas sobre a língua portuguesa nos últimos anos. Claro está, uma vez que a língua portuguesa entrou em contato com outras línguas e culturas, ela passa a ganhar novos matizes e a adaptar-se à idiossincrasia de seus novos falantes. Isso a torna uma língua ainda mais rica e diversa, uma vez que passou a incluir novas formas de expressão.

Tendo em vista o exposto até aqui, é errôneo considerar certa forma da língua portuguesa correta em detrimento de outras formas. O que de fato ocorre é que uma língua de tamanha extensão, falada por mais de 250 milhões de pessoas como língua materna, sem mencionar outros pelo menos 20 milhões de falantes de português como língua segunda, não pode ser medida desta maneira. Não se pode classificar tamanha diversidade em duas medidas “língua padrão” e “uso incorreto da língua”, como por vezes a gramática normativa e muitos de seus falantes ditos “cultos” parecem querer supor. A língua portuguesa se desenvolveu de diferentes formas em regiões distintas por conta da influência de culturas e do contato com outras línguas. O que se verifica são diversas variedades da língua portuguesa.

De acordo com o linguista alemão Carsten Sinner (2013), a variedade linguística é definida como um conjunto de características (entre outras fonéticas, morfossintáticas e léxicas) que acompanham de forma sistemática um sistema de linguagem com características exigidas por falantes ou por contextos situacionais específicos. Cada uma destas variedades está correlacionada a parâmetros extralinguísticos que, em geral, são reconhecidos por seus usuários. Desta forma, a língua portuguesa apresenta diversas variedades, pois cada país onde é falada tem seu próprio sistema de linguagem com suas características e regras de uso específicas. Sinner (2013) diz, ainda, que falantes ou grupos de falantes de uma variedade avaliam e classificam seus interlocutores e grupos de falantes de outras variedades com base em seu próprio uso, uma vez que não existe variedade neutra. Ou seja, consciente ou inconscientemente, seja a intenção avaliar ou somente situar, um falante sempre toma aquilo com que está familiarizado como ponto de referência. Por outro lado, uma variedade também poderá ser “julgada” (se a intenção do falante for avaliá-la) ou classificada segundo seu estatuto mais ou menos oficial na sociedade em que é falada – se é tida como a variedade ensinada nas escolas ou “apenas” presente em comunidades de menor prestígio, por exemplo.

Consequentemente, o que motiva um falante a avaliar ou classificar uma variedade da língua portuguesa segundo seu “nível de correção” é a sua idiossincrasia, seu próprio ponto de vista linguístico, que pode ser altamente influenciado pelo preconceito linguístico disseminado em diversos meios, entre eles o sistema de ensino e a imprensa em geral. No entanto, se deveria considerar que não há uma variedade linguística “melhor” que outra. O que de fato existe são variedades linguísticas diversas e igualmente ricas em expressão que são mais frequentemente utilizadas em determinada região ou contexto sociolinguístico em detrimento de outras. Por conseguinte, avaliar o “nível de correção” somente leva ao preconceito e à marginalização de certas variedades, traumatizando seus usuários e estigmatizando seu uso.