Maltês

Há pouco eu passei uma semana em Malta, ou Repubblika ta’ Malta em maltês. Para quem não conhece, Malta é um país composto por um arquipélago ao sul da ilha italiana Sicília. Malta foi colônia britânica por bastante tempo e tornou-se independente em 1964. O país é muito antigo, tendo uns 7.000 anos de existência e possui duas línguas oficiais: o maltês e o inglês. Além disso, há uma grande presença do italiano, por causa da proximidade, não só geográfica, como também cultural e política, entre os dois países.

O maltês, ou Malti, como é chamado por seus falantes nativos, é uma língua afro-asiática, semítica, centro e sul árabe (Ethnologue). Curiosamente, é a única língua de origem árabe que utiliza o alfabeto latino. Em sua tipologia (Ethnologue) a língua apresenta estrutura oracional SVO (sujeito-verbo-objeto), preposições, gêneros masculino e feminino, artigo definido, afixos para a marcação verbal de número e pessoa, 23 consoantes, 10 vogais, 8 ditongos e é uma língua não-tonal.

Supõe-se que a língua derive da língua falada pelos fenícios (site oficial de Malta), que ocuparam o país em meados do século VIII a.C. É clara a influência do dialeto árabe magrebino na língua, proveniente da ocupação árabe entre os séculos IX e XIII d.C. Mesmo após a “reintregração” do arquipélago no mundo cristão, no início do século XII, os habitantes malteses seguiram utilizando o dialeto, que segue desenvolvendo-se até os dias de hoje. A língua possui diversas características que não correspondem ao árabe clássico e seus falantes não entendem essa língua.

Abaixo algumas imagens com exemplos do maltês sendo utilizado em algumas placas:

Em amarelo: PERIGO Queda livre sem proteção nas bordas Em azul: Proibido sentar ou subir no baluarte
Aldeia de artesanato
Pedestre, respeite a barreira da calçada
Em verde: Saída de emergência Em caso de emergência quebre o vidro 1. Gire para romper o lacre 2. Golpeie o botão vermelho Em vermelho: Saída de emergência

Nota-se nas imagens, que os avisos em geral são escritos nas duas línguas oficiais do país. Nas áreas mais urbanas, como por exemplo na capital, Valeta, predomina o uso da língua inglesa, enquanto que em áreas rurais há mais avisos escritos somente em maltês.

Havendo sido separado há tanto tempo do mundo árabe, o maltês foi modificando-se com o tempo, incorporando principalmente elementos fonéticos e léxicos de línguas românicas e do inglês. Desta forma, pode-se observar nas imagens anteriores a influência do italiano no léxico maltês: Periklupermess, barrikati e Emerġenza  (embora que as duas últimas também poderiam ser empréstimos do inglês). O léxico de diversas áreas, como ciência e cultura, provêm em grande parte do italiano ou do inglês. Caso alguém tenha interesse em aprofundar esta análise sobre a língua, no seguinte link é possível ver a constituição de Malta escrita em maltês.

Embora inglês e maltês coexistam no país, nota-se certa divisão entre os âmbitos de uso de ambas línguas (Badia i Capdevila): 90% dos malteses diz utilizar sua língua materna no âmbito familiar e 70% no trabalho, enquanto que 14% declara preferir usar inglês no âmbito familiar e 29% no trabalho, segundo um estudo de 2011. Vale ressaltar que 98,6% da população é falante nativa de maltês e 1,2% de inglês.
No que diz respeito aos hábitos culturais dos malteses, um estudo do National Statistics Office of Malta (Instituto Nacional de Estatísticas de Malta) aponta que a língua “preferida” para leitura no país é o inglês (61% para a leitura de livros e 71% de revistas, enquanto que estes números caem para 36% e 23% para a leitura em maltês, respectivamente). O oposto é observado para o consumo de outras mídias: apenas 25% dos entrevistados dizem preferir assistir televisão e 15% ouvir rádio em inglês (em contrapartida a 45% e 82% dos entrevistados(respectivamente), que dizem preferir consumir as mídias mencionadas anteriormente em maltês. Esta é possivelmente uma herança proveniente do uso majoritariamente oral da língua até o final do século XIX, quando finalmente foi criada uma gramática maltesa.

Alguns links interessantes:

Fontes mencionadas no texto:

Ignasi Badia i Capdevila; A view of the linguistic situation in Malta. Em Noves SL. Revista de Sociolingüística: Spring-summer 2004. Acessado dia 09/04/2017.

Simons, Gary F. and Charles D. Fennig (eds.). 2017. Ethnologue: Languages of the World, Twentieth edition. Dallas, Texas: SIL International. Acessado dia 09/04/2017.